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Nova secretária de Educação de Belém assume em meio à greve de professores e promete foco em alfabetização e tempo integral

Secretária de Educação de Belém, Beatriz Morrone. Reprodução / Todos Pela Educação A Prefeitura de Belém confirmou na quarta-feira (28) a nomeação de...

Nova secretária de Educação de Belém assume em meio à greve de professores e promete foco em alfabetização e tempo integral
Nova secretária de Educação de Belém assume em meio à greve de professores e promete foco em alfabetização e tempo integral (Foto: Reprodução)

Secretária de Educação de Belém, Beatriz Morrone. Reprodução / Todos Pela Educação A Prefeitura de Belém confirmou na quarta-feira (28) a nomeação de Beatriz Morrone como nova secretária municipal de Educação (Semec), em substituição a Patrick Tranjan, que deixou a pasta após um ano à frente da área prioritária na gestão do prefeito Igor Normando. A mudança ocorre em meio a protestos e greve dos servidores municipais da educação, que reivindicam, entre outras pautas, melhorias no estatuto da categoria, além de criticar modelo de gestão e alterações na matriz pedagógica. Beatriz concedeu uma entrevista exclusiva ao g1 Pará durante um evento organizado pela ONG Todos Pela Educação que reuniu, em Brasília, prefeitos de todo o país em dezembro de 2025. No evento, Beatriz participou representando o prefeito Igor. Segundo a prefeitura, a troca no primeiro escalão faz parte de uma reorganização do secretariado municipal. Antes de assumir o cargo, Beatriz atuou como secretária adjunta pedagógica desde o início da gestão de Igor Normando, gerenciando políticas de ensino, alfabetização e formação de professores na rede municipal. A nomeação foi anunciada em meio a um momento de tensão. Professores e servidores da educação municipal protestam desde 19 de janeiro contra mudanças na legislação que altera o estatuto, reduz carga horária e modifica o currículo da categoria. De acordo com o Sindicato dos Professores (Sintepp), Beatriz ficou à frente do processo de discussão sobre a matriz curricular, alvo de críticas da categoria. Às vésperas do início do ano letivo, marcado para 2 de fevereiro, uma assembleia dos professores foi marcada para esta quinta-feira (29) a fim de definir se o movimento grevista deve continuar até o começo das aulas nas escolas, que ainda estão em fase de planejamento. Quem é Beatriz Morrone Natural de São Paulo, Beatriz Morrone, 40 anos, é jornalista de formação e possui licenciatura em Letras. Há 10 anos trabalha com educação pública em diferentes estados brasileiros. A experiência dela inclui passagens pela Secretaria de Estado de Educação do Pará, onde assessorou o secretário e coordenou a política de recomposição de aprendizagem, e pela Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, onde foi gerente de educação integral. Antes de assumir a secretaria adjunta pedagógica em Belém, Beatriz atuou como consultora no Ministério da Educação (MEC), na Diretoria de Formação Continuada de Professores. Também trabalhou no terceiro setor, apoiando redes de ensino em processos de melhoria da aprendizagem, e foi professora de língua portuguesa na rede estadual de Mato Grosso, lecionando para turmas de 9º ano e ensino médio. "Eu sou originalmente jornalista, depois me tornei professora de língua portuguesa. Atuei em diferentes redes de educação, sempre focada na garantia dos direitos de aprendizagem das crianças. Essa atuação pela educação me levou a muitos lugares do Brasil", afirmou Beatriz em entrevista exclusiva ao g1. Desafios com greve e reivindicações A nova secretária assume em um cenário conturbado. Na terça-feira (28), professores e servidores municipais protestaram em frente à Câmara Municipal de Belém contra mudanças no estatuto da categoria. O movimento grevista reivindica revogação de alterações na carga horária, no currículo e em outros pontos considerados prejudiciais pelos trabalhadores. Na entrevista, Beatriz não comentou diretamente sobre as atuais reivindicações dos servidores, mas reforçou o compromisso da gestão em ouvir profissionais da educação. "No início da gestão, fizemos uma escuta aos professores e a formação continuada foi um dos pontos que eles trouxeram como críticos. Investimos na revisão dessa formação baseada em evidências científicas", afirmou. Sobre a greve, a Semec se manifestou, por meio de nota, afirmando que "a atual gestão é marcada pelo diálogo e se mantém aberta a negociações, mas não abre mão das reformas realizadas nos estatutos dos sindicatos da Educação e da Assistência Social". Ainda segundo a nota, "ambas (as reformas) foram aprovadas na Câmara Municipal e se tornaram leis, trazendo diversos benefícios às categorias citadas, inclusive a inclusão de gratificações que antes não incidiam sobre a Previdência, o que garante uma melhor aposentadoria aos servidores públicos". O g1 também procurou o posicionamento do Sintepp sobre as afirmações da prefeitura, mas ainda não havia obtido resposta até a última atualização da reportagem. Balanço do primeiro ano e impactos da COP30 O primeiro ano da gestão Igor Normando na educação foi marcado pela realização da COP 30 em novembro de 2025, que exigiu ajustes no calendário escolar. As férias de julho foram reduzidas e parte delas transferida para novembro, período em que a cidade teve sua dinâmica de deslocamentos alterada pela conferência climática. "Como a COP foi agendada com bastante antecedência, o calendário letivo foi aprovado no ano anterior e comunicado às equipes escolares e às famílias. Houve tempo hábil para que as escolas se planejassem. As férias de julho foram menores e a segunda metade foi deslocada para novembro. Mantivemos os 200 dias letivos exigidos por lei", explicou Beatriz. A secretária avalia que os desafios da educação em Belém são históricos e não acredita que a alteração de 15 dias no calendário impacte os índices educacionais. "Nossos desafios são expressos pelos índices devido a uma série de fatores históricos que a prefeitura está comprometida em enfrentar", afirmou. Alfabetização: prioridade número 1 Para 2026, a principal prioridade anunciada pela nova secretária é garantir os direitos de aprendizagem e desenvolvimento na idade certa, com foco especial na alfabetização. Dados levantados pela secretaria no início de 2025 mostraram que apenas metade dos estudantes municipais termina o segundo ano alfabetizada. "Não é possível que essa condição permaneça. A alfabetização, quando acontece na idade certa, transforma toda a vida acadêmica e o desenvolvimento integral do estudante. Este foi e será o foco do nosso trabalho", enfatizou Beatriz. A secretária destacou que foram implementadas formações continuadas para professores de primeiro e segundo ano, com nota média de 9,2 de aprovação. "Os professores dizem que saem da formação sabendo exatamente o que precisam aprimorar na aula do dia seguinte. Isso é muito relevante", disse. Ampliação de vagas Um dos principais desafios históricos de Belém é a oferta de vagas para a primeira infância, segundo a secretaria. A Semec informou que reorganizou o planejamento para 2026 e projeta ampliar o atendimento de 20 mil para 24 mil alunos na educação infantil. "Antigamente, o planejamento da oferta de vagas era feito pelas próprias escolas. Nesta gestão, a secretaria assumiu essa responsabilidade em diálogo com os gestores. Reorganizamos a oferta para atender melhor as demandas dos territórios", explicou. A reorganização incluiu análise de escolas próximas que ofertavam as mesmas modalidades. "Às vezes havia duas escolas municipais lado a lado oferecendo as mesmas turmas. Organizamos esse atendimento e essa simples mudança já possibilitou ampliar a possibilidade de atendimento". Na campanha, Igor Normando prometeu criar o programa "Creche no Bairro", com ampliação de 3 mil vagas, segundo levantamento feito pelo g1. Tempo integral Outro compromisso de campanha em andamento, segundo a secretária, é a ampliação da educação em tempo integral. No início de 2025, apenas uma escola de ensino fundamental funcionava 100% nessa modalidade. Para 2026, está previsto um crescimento de 470% nas turmas que ofertam tempo integral, segundo Beatriz Morrone. "A gente sabe que não dá para transformar isso do dia para a noite. Isso precisa ser um planejamento feito com muito cuidado para não impactar a oferta geral de vagas. Estamos fazendo esse trabalho sempre em diálogo com os territórios, gestores, professores e famílias", afirmou. Beatriz ressaltou que educação em tempo integral é diferente de contraturno. "A política de tempo integral considera a integralidade da formação do sujeito em todo o período em que ele está na escola. Não é ter matemática e português de manhã e dança à tarde. As práticas que promovem o desenvolvimento integral precisam estar integradas ao longo de toda a jornada de forma articulada aos componentes curriculares", esclareceu. O projeto "Tempo de Educar", prometido na campanha com previsão de oito escolas funcionando em tempo integral (uma em cada distrito), ainda está em fase de implementação. A prefeitura disse que poderá trabalhar em parcerias com Usinas da Paz, igrejas e associações comunitárias para viabilizar atividades extracurriculares. Reformas, construções e investimentos Em relação às promessas de construção de 13 novas escolas e reforma de 40 unidades, a gestão investiu cerca de R$ 33 milhões em 2025 entre reformas e manutenção. Apenas duas entregas já foram realizadas: a escola Isa Cunha no Barreiro e a escola Bel Martins em Mosqueiro. Não houve entrega de construção de escola do zero no primeiro ano, mas sim adequações infraestruturais. A secretaria se comprometeu a fornecer números detalhados sobre o andamento das demais obras. Outro investimento anunciado foi a distribuição de mais de 230 aparelhos de ar-condicionado para climatização de mais de 50 escolas da rede municipal. Recomposição de aprendizagem Para estudantes que avançaram sem aprender, a secretária disse que foi implementado o programa "Rios da Aprendizagem", voltado para alunos do terceiro ao nono ano com defasagens severas em leitura, escrita e matemática. "Fazemos uma avaliação para entender onde as crianças estão, depois elas são agrupadas com outras com desafios semelhantes e o professor faz uma intervenção muito focada. Se tem uma criança no quinto ano que não reconhece letras, a atuação é focada para que ela supere esta dificuldade", explicou. A secretária afirmou que os relatos são positivos, com professores surpresos com os resultados e crianças mais motivadas. "Os alunos dizem: 'Eu não lia ano passado, agora estou lendo'. Os pais relatam que os filhos chegavam desmotivados à escola e agora conseguem realizar as atividades. A gente não vai desistir de ninguém, ninguém vai ficar para trás", declarou. Monitoramento pedagógico Uma das mudanças implementadas pela gestão, segundo a secretária, foi a criação de uma equipe de técnicos de assessoramento pedagógico que visita as escolas periodicamente. No ensino fundamental, as visitas ocorrem a cada 15 dias; na educação infantil, uma vez por mês. "Os técnicos vão com pauta de forma estruturada, com instrumentos organizados de registro e planejamento. Oferecem formação personalizada em serviço para a gestão escolar. É um diálogo formativo, não uma fiscalização", disse. Ela afirmou, ainda, que o trabalho resultou em informações mais precisas sobre as demandas das escolas e alimenta a secretaria com dados para aprimorar os processos de gestão. "Hoje tenho pontos focais que conhecem cada unidade e podem me trazer informações fidedignas. Isso foi um grande avanço", avaliou. Embaixadores pelo meio ambiente Em conexão com a COP 30, mas com continuidade para além do evento, a secretaria criou o programa "Estudantes Embaixadores pelo Meio Ambiente". Alunos foram eleitos para liderar projetos de sustentabilidade, clima e meio ambiente em escolas e comunidades. "Os estudantes participaram da COP30, acessaram a Blue Zone, participaram de rodas de conversa com jovens de outros países e até com a presidência da COP. Eles trouxeram a voz de todos os cantos de Belém, de Mosqueiro, Jurunas, Tapanã, Terra Firme", contou. O projeto inclui cuidado com jardins, hortas escolares e ecopontos para coleta de resíduos. "Um estudante autista que tinha diversos desafios diz que ser embaixador pelo meio ambiente transformou a vida dele. Participou da COP, aprendeu a ler e agora tem vontade de estar na escola", relatou. Cursinhos pré-vestibular ainda não são prioridade Questionada sobre a promessa de campanha de criar vagas de cursinho pré-vestibular municipal, Beatriz esclareceu que essa não é uma prioridade no momento. "O ensino médio, que em geral é a etapa beneficiada por esses programas, está sob a responsabilidade do Estado. A gestão municipal tem a responsabilidade de cuidar da educação infantil e do ensino fundamental", justificou. A secretária não descartou parcerias futuras com o governo estadual através do regime de colaboração. Próximos passos Com a nomeação oficializada, Beatriz Morrone passa a integrar oficialmente o primeiro escalão da gestão Igor Normando e terá pela frente o desafio de implementar as políticas pedagógicas em andamento, ampliar vagas na educação infantil, melhorar os índices de alfabetização e, ao mesmo tempo, negociar com os servidores em greve que reivindicam mudanças no estatuto da categoria. "A prioridade número 1 segue sendo a garantia dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento na idade certa. Não basta frequentar a escola, não basta que a escola esteja linda, não basta que a merenda esteja melhor. Tudo isso precisa reverter em aprendizado e desenvolvimento. Essa é a nossa prioridade maior", concluiu a nova secretária. A nova titular da Semec informou que os dados sobre investimentos em merenda, distribuição de materiais didáticos e andamento completo das obras de reforma e construção ainda serão divulgados. VÍDEOS: veja todas as notícias do Pará